A palavra de 2026 é performática
Qual foi a última vez que você postou algo só porque ficou bom no feed?
Sabe quando você assiste a um Story e tem a sensação de que aquilo foi feito para parecer espontâneo, não para ser? Em 2025, esse incômodo ganhou espaço no dicionário. A Oxford escolheu “rage bait” (isca de raiva: conteúdo desenhado para irritar e puxar engajamento). A Cambridge foi de “parasocial” (relação de mão única com celebridades, criadores e até chatbots). Merriam-Webster carimbou “slop” (lixo digital em massa, muitas vezes gerado por IA).
Só que tem uma palavra que costura tudo isso num gesto só: “performativo”. A i-D trouxe ela ela como o atalho cultural do ano, usada em grupo de WhatsApp e na vida real para nomear o que parece calculado, otimizado para plateia. Durante minha viagem no Ano Novo com amigos, entramos em consenso: ela tem tudo para ser a palavra do ano. Pense no esforço de parecermos perfeitos ou cheios de graça na hora de expormos à nos mesmos diantes da sociedade. Não é sobre “mentira” apenas. É sobre método.
O meme do “homem performativo” e a estética do “bom moço”
A internet criou um personagem que o Brasil reconhece na hora: o “homem performativo”, também apelidado de “matcha male” em algumas leituras gringas. Ele não vende um produto, vende um combo de sinais. O meme lista detalhes como “amo mulheres”, “sou feminista”, “eu faço terapia”, matcha na mão, indie no fone, e um livro de bell hooks, tipo “All About Love”, aparecendo no enquadramento em vez de ficar amassado na mochila.
O ponto nem é vigiar o gosto alheio. O meme funciona porque ele cutuca uma ansiedade real: a de que sensibilidade pode virar performance de conquista. O “Eu sou diferente dos outros”, na verdade, é sinal de repetição.
A leitura como vitrine: BookTok Brasil e “performative reading”
A i-D cita “performative reading” como sintoma de um mundo pós-BookTok. No Brasil, isso tem dado, número, impacto no varejo e na conversa de editora. O PublishNews registrou crescimento de 39% nas publicações no TikTok com as hashtags #BookTok e #BookTokBrasil no primeiro semestre de 2025, além de bilhões de visualizações e uma rotina semanal de milhares de vídeos. Daí nasce uma pergunta que parece cruel, mas é prática: eu li porque eu queria, ou eu li para virar alguém na internet? O livro, que era tempo lento, entrou na lógica do “provar”. Print de meta, foto de pilha, vídeo de reação, ranking do mês. Leitura vira sinal de identidade, e sinal, quando vale status, vira performance.
O corpo em gráficos: Strava, anéis, “gym rats” e a vida quantificada
A performance não parou na opinião e no consumo cultural. Ela desceu pro corpo. Em 2025, o treino virou planilha emocional. Tem gente que corre pelo prazer de correr, óbvio. Mas tem também a corrida como narrativa pública: pace, recorde pessoal, rota bonita, print do relógio, legenda pronta. A Strava, no seu relatório anual, cravou que corrida segue como atividade número 1 na plataforma e caminhada virou a segunda atividade mais registrada, além de apontar a explosão de clubes e encontros organizados. O mesmo relatório fala de Gen Z investindo em wearables e da musculação como foco forte, inclusive por estética. Isso explica o clima “gym rat” contemporâneo: não é só treinar, é rastrear. E quando dá para medir, dá para performar. A fronteira entre saúde e vitrine fica fina quando a validação vem do gráfico, não da sensação.
Política como estética e base como audiência
Se “rage bait” é isca de raiva, faz sentido que ele se encaixe em política. A própria Oxford menciona “performative politics” ao falar do termo, nesse ecossistema em que provocar, dividir e inflamar vira técnica de engajamento. No Brasil, isso conversa com um fenômeno que a gente conhece sem precisar de tradução: pauta como acessório de persona. Tem gente que usa causa para parecer cool, tem gente que usa causa para manter a base em alerta permanente, tem gente que usa indignação como combustível de calendário. A política, que já era teatro em várias camadas, ganhou agora a métrica do algoritmo.No fim, “performativo” deixa de ser um meme (ou até uma ofensa) e se torna um radar. Se tornou sintoma da pulga atrás da orelha que nos faz questionar se algo é expontaneo ou se é estratégia.









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